Teatro

 

 

 

 

 

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( algum dia isto será um texto sobre sara kane o o seu teatro)

O teatro de sara kane tem um defeito do qual nunca se livrará, é um pasto demasiado fértil para os críticos literários.

A violência não é significativa, não tem importância alguma, não quer dizer nada e é por isso que em Kane ela é gratuita, sem consequências concretas. .

O importante em Kane é o texto, é o exercício narcísico de escrever bem, relativamente bem, no sentido em que relativo é em comparação com os outros autores e contra a crítica. .

Sara Kane não sabe para onde está a ir com a sua escrita, não pretende, não ostenta e sobretudo não consegue nada de especial, pelo menos para si própria. .

A sua força vem exactamente dai, desse medo, dessa falta de confiança, dessa fraqueza natural. O seu teatro é genial por isso, por ser desligado do objectivo que consegue. .

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style=”font-size: 10pt; font-family: Verdana”>Blasted (Ruinas – Artistas Unidos, Americo Silva e Carla Bolito)

Existe uma inocência enorme em Kane que é o elemento principal na sua obra, é a ingenuidade de Kane que está presente em todos os textos, excepto em 4.48 Psicose. É a inocência que a faz perguntar coisas ao texto….” Será que é possível?” Será que a mentira pode ser a melhor das verdades disponíveis? Será que se pode matar alguém por dizer a verdade? Será que se pode partir um texto a meio do seu percurso? Será que isso vai resultar e não pôr em causa as perguntas fundamentais do texto? .Será que podem existir 4 pessoas dentro duma? Será que se pode fazer um texto em que dois diálogos pareçam um…e esse texto? …será que pode parecer um só pensamento…será que disperso e estilhaçado pode vir a parecer concreto se divido, arrumado e polido? Será que alguém pode ser sempre honesto?….será possível nunca mentir?….será a mentira mais benéfica que a verdade? Será que isto serve para alguma coisa, será possível que saiba escrever? .

Será, será, será, será!

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Garcinda Nave e Miguel Borges dois dos meus favoritos em 4.48 psicose

…passagens geniais, tiradas do 4.48 psicose

….nada pode extinguir a minha ira

E nada pode repor a minha fé

Não é um mundo onde eu queira viver.

Cada palavra de apreço tira um pedaço da minha alma

Um cavalo expressionista

Num estábulo entre dois parvos

Não sabem nada

….sempre andei em liberdade

Última numa longa linha de cleptómaniacos literários( uma tradição honrada pelo tempo)

.O roubo é um acto sagrado

No caminho retorcido para a expressão

Uma grande quantidade de pontos de exclamação

Substitui o colapso eminente

SÓ UMA PALAVRA NA PÁGINA

…..E LÁ ESTÁ O TEATRO.

.Escrevo para os morto.

.Os desnacidos. .

Depois das 4.48 não volto a falar.

Cheguei ao fim deste conto repugnante e aterrorizante. .De um sentimento metido numa carcassa alienígena..Inchada pelo espírito maligno da maioria moralista.

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.Estou morta há muito tempo De volta às raízes.

. Canto sem esperança na fronteira

Á PARTIDA TUDO BEM!

Duas pessoas sentadas a uma mesa numa sala branca e vazia. Uma garrafa em cima da mesa e um copo.

A: ah! Assim sim!

…assim está bem!

…e a ti parece-te bem assim?

B: à partida……não me parece mal.

A: Óptimo fico feliz que estejas de acordo comigo. Fica então convencionado entre os dois que assim está bem!

.Assim está perfeito.

B: hum……erg!

A: Tens uma objecção!

B: Como?

A: Tens uma objecção!

Não tens?

O que foi agora?

B: Como assim?

A: Agora! …..o que foi agora? B: Agora? A: Sim! A objecção qual é a objecção agora? Pensei que por uma vez nos tínhamos posto de acordo. Pensei que tínhamos visto todos os ângulos da questão Prós Contras Uma lista, fizemos uma lista de prós e uma lista de contras….vimos tudo de trás para a frente. Falámos….debatemos….cedemos daqui e dali! ….e no fim quando tudo parecia estar decidido…..uma objecção! Ora francamente!…..assim não vai ser possível….eu assim não consigo funcionar. Esta não é a minha maneira de fazer as coisas. Tu tornas tudo impossível!

B: não me parece mal! …foi o que disse! A; porém… ..não é?! Hum? Porém tens uma objecção…..não te parece mal mas tens uma objecção! É isso que me chateia….a falta de franqueza que és capaz de ter nestas coisas. Tens de falar abertamente, dizer o que está mal e o que está bem. Pensei que o tinhas feito.

Não fizeste?

Não?

(silêncio).

Fizeste? B: O quê? A: Falar abertamente, dizer o que pensas, apresentares a tua argumentação de forma explicita, não ocultares o teu raciocínio. Essa que saiba é a única forma de podermos chegar a uma conclusão razoável, a uma decisão justa….a um consenso! Esse teu defeito é perturbador sabes? Como pensas possível que sem saber exactamente o que tu pensas eu possa decidir o que quer que seja? Pensas que me agrada? Pensas? Repara que em tudo o teu comportamento é cínico, tornas a mais simples das coisas absolutamente sofrível, ainda á pouco estava esperançado com a resolução que tínhamos e agora estou de volta ao problema! Ora bolas!! Ainda por cima com a agravante de não seres explicito, de não concretizares! Vestes essa tua capa enigmática e sorris, o que tu queres no fundo é atingir-me com esse jogo psicológico que fazes, podias dizer que não concordas, que isto assim não vai funcionar que existem outras soluções….melhores soluções, que no fundo a minha perspectiva está a ser redutora, simplista e que eu devia pensar menos como um filho da puta!

Mas não, não tu!Não o sr “ eu-sou-um-gajo-sábio-e-como-tal-falo-pouco” não é? Dá-me vontade de rebentar contigo, juro!! É o que me apetece nas mais da vezes….REBENTAR CONTIGO!!FO-DA-SE, olha por mim fica tudo como estava, voltamos ao mesmo, primeira forma!Não quero nem saber, estou farto desses ares que dás, fazes-me lembrar os caciques comunistas do comité central…..sentado, calado, á escuta….sem emitir grandes opiniões e quando os outros te estendem uma ponte, uma forma de entendimento…..vago, abstruso, fechado…..duas palavras ou três…..nunca te envolves demasiado na discussão e no final quando tudo parece decidido…..não te atravessas, não te comprometes, não alinhas!

Quero é te fodas mais essa puta dessa postura! O que te faz falta é teres confiança, é seres forte, assumires as tuas opiniões! Tu não! ….ficas com esse ar desconfiado a olhar para o vazio e a dizer “ hum….erg” para depois se alguma coisa não estiver bem, se alguma coisa correr mal……pois, pois é!

Um grande FILHO DA PUTA!

Juro que um dia destes te rebento!

( Silêncio)

B deita um pouco da bebida no copo….olha lá para dentro e bebe.

A: nem responde! ….assim também é demais! B: mas o que é que te aborrece tanto?…queres beber? Queres beber? A: beber? B: sim, foi o que perguntei?

Se queres beber?

Bebes?

A: Não te ocorre dizer mais nada?

(Silencio)

Traste

por: Simon Boulanger …tem continuação!

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