sobre o Indie Lisboa 2008

Abril 29, 2008 at 11:43 pm Deixe um comentário

Acabo de chegar duma sessão do indie e devia estar a falar sobre a mediocridade do cinema americano e da insuficiente qualidade da sua escola independente, no entanto não é disso que eu posso falar hoje, hoje tenho de deixar aqui um voto de protesto contra a pouca vergonha dos tipos responsáveis pelo indie!

Tudo bem que aquilo não é uma coisa pública, financiada pelo estado português para promover uma politica cultural qualquer….aquilo é o que é!…e o que aquilo é, é um evento!….um evento que sofre duma ambiguidade completamente escruciante…um festival comercial para promover cinema não comercial….no fundo e em termos puramente conceptuais o que nos propõem é tão somente semana e meia de incongruência!

Ainda assim existem muitas maneiras de esfolar o mesmo coelho e aquilo que esta organização fez foi optar por fazê-lo da pior maneira. O festival foi sem dúvida pago pelo patrocínio do grupo PT, com a TMN à cabeça do sponsoring, a campanha e toda a imagem foi concebida pela brandia, provavelmente de borla, doutra forma não se justificava a monumental referência àquela agência em cada spot. Isto só por si já é completamente mainstream, foge totalmente a uma lógica cultural pura em que o público é o centro do evento o público aqui passou a ser um adereço útil para renovar os contractos por mais um ano….é uma pouca vergonha e o resultado é ofensivo, é ofensivo por exemplo que a entrada da sala de cinema seja uma carpete da TMN e que em todos e cada um dos assentos do público ponham uma espécie de guardanapo (tipo avião) com o logo da marca, já o facto de o filme ser precedido de 6 anuncios (4 do meo, 1 da jonhy walker e 1 do evento) deixa de ser ofensivo para começar a ser repugnante. O aparato à volta daquilo é excessivo em tudo e deixa ficar claro que a única coisa relevante é existir dinheiro a montes e o que passa a segundo plano é a inteligência na forma de aplicá-lo, vai dai que se manda dinheiro para cima das coisas com uma displicência de “prêt-a-porter”. Ele são 4 cinemas envolvidos e não sei quantas salas, 238 filmes, dezenas de países, centenas de sessões , os habituais bacocos seminários, as pindéricas actividades para criancinhas, as tragicómicas presenças dos sempre exóticos realizadores e “elásse” um bus de ligação entre os vários pontos do “maravilhoso e único” mundo do Indie de Lisboa!!…uma coisa medonha, é de fugir a sete pés!! Pela simples razão que não existe densidade de conteúdos, não tem profundidade…é superfluo, é coisa de ir sacar gajas com um Dostoievski de capa ilustrada debaixo do braço…a dar estilo.

Num evento de carácter cultural a lógica que deve imperar é a salvaguarda do conteúdo e da sua qualidade, seja ela do ponto de vista da diversidade, da novidade, da qualidade, da massificação ou outro. O público deve ser o único destinatário do esforços dos organizadores seja na criação, fidelização, cativação ou oura qualquer intenção, sempre em relação a público. Este tipo de manifestação deve ser sempre financiada pelo bilhete (no indie, curiosamente isto também se aplica, é a lógica do duplo financiamento) comprado para ver a obra, não obstante compete ao estado financiar as actividades que sendo expressões de diversidade, de inovação, de experimentação apenas estão afectas a núcleos de interesse ainda muito reduzidos. Pelo que percebo não é o caso do Indie, este festival não tem apoios públicos o que serve de desculpa a esta malta para fazer daquilo uma orgia de venda. ora bem! Caríssimos!…o posicionamento do vosso produto, como a brandia deveria saber, não é compaginável com sponsoring puro e com este rega-bofe de misturar cultura contra-corrente com objectivos comerciais de grandes marcas…..a captar investimento privado teriam de o colocar na forma e na lei do mecenato, não saindo aquele dinheiro do budget de marketing nem servindo intenções estatísticas dos profissionais dessa área da empresa. Sairia isso sim dos mesmos agentes mas com intenções diversas das comerciais pois o retorno seria para essas empresas ao nível fiscal, não necessitando de outra vinculação que não aquela que é a apropriada!!…incentivo da diversidade e qualidade cultural, na perspectiva da responsabilidade social da empresa como moeda de troca ter licença para operar num mercado altamente lucrativo e basilar na organização económica e na vida de todos nós….inclusive daqueles de nós que gostam de cinema!

PS – Não espero que alguém vá ler as minhas criticas aí no Indie, no entanto se tiverem esse “mimo” com este que aqui escreve pedia que me explicassem que pateta alegre, que capitão da areia de vós é que se lembra de reservar, sim reservar cadeiras (suponho que para gente importante) numa sessão pública, onde se vendem bilhetes e que não existem lugares marcados….é de facto neste cenário uma cereja adequada!

Pedro

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Não me lixem!!! ….mais cinema lá no indie!

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