às voltas com a arte e os oficios!! – 1

Julho 19, 2007 at 11:59 pm 1 comentário

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A arte das coisas simples e outras coisas sem sentido

(por mail com Maria )

…não sei se conhece! Mas anda aí um tipo chamado Vincent Cassel, é francês, costumo dizer que é o meu actor favorito e depois acrescento sempre a Isabel Hupert como a minha actriz favorita!

O tipo é mesmo bom actor! Tem feito papeis fantásticos, com uma amplitude de personagem larguíssima, foi um homem transtornado e enraivecido no Irreversível, foi um ladrão egocêntrico e metro sexual no Oceans Twelve, um agente secreto silencioso e frio em agentes secretos, andou a fazer de bandido violento no Derailed e por exemplo no Joana D`Arc fez de guerreiro intrépido.

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Representa na Europa como na América, faz aquilo como um profissional, o trabalho dele é ser actor.Representar deve ser para ele nos mais dos dias, uma coisa que faz sem grandes convincções ou floreados mágicos…não lhe vejo tiques de estrela! Aprendeu técnicas de representação, tem vocação e talento, mas quando acorda de manhã para se dirigir ao “set” adivinho que sente como qualquer um de nós…..chateado por mais um dia de trabalho!….como houvi no outro dia “mais vale um mau dia de praia que um bom dia de trabalho” e deve isto ser verdade para todos os que lá andam a trabalhar todos os dias!!
Penso que é isto que faz dele um fora de série e o certo é que a representação que consegue fazer dá vida a papeis que à partida não são de grande interesse ou visibilidade!

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Vem isto ao caso a propósito do primeiro filme que eu lhe vi…La Haine (Ódio), do Mathieu Kassovitch. O filme é sobre os distúrbios nos bairros da periferia de paris, nos anos noventa, semelhantes aos que se repetiram agora á um par de anos. A razão desta vez foi a lei do véu, se não estou em erro, pois naquela altura foi a morte de um jovem muçulmano por um policia, uns atribuíam o disparo a um lamentável incidente e outros a um racismo profundo e a práticas usuais de descriminação, violência, abuso de poder e outras que tais.

O Mathieu Kassovitch na altura era um jovem criativo, muito talentoso e fez um filme enorme. Não creio que o fizesse com esse propósito. Prefiro pensar que o tema escolhido não foi uma afirmação, uma pretensão de expressar uma visão educadora, fazer uma obra referencial e demonstrativa do talento inequívoco do realizador.

Eu acho que se quisesse fazer isso tinha saído uma coisa pirosa e intragável, costuma ser assim, na arte costuma ser assim. Uma obra só consegue ter densidade se for um exercício interno. Um quadro, uma escultura, uma fotografia, uma composição musical, um livro…são pouco importantes e verdadeiramente inúteis sem aquilo que provocaram no autor, o acto de pensar, raciocinar, intuir, resolver, concordar, com temporizar….ser uma coisa e a inversa, perguntar e responder, escolher!…decidir, errar e acertar, julgar…..enfim tudo o que é possível existir numa obra de arte. Mas mais importante….também aquilo que não existe nela, aquilo que não se inclui!

Uma obra de arte não é uma coisa profunda com um nível de intelectualidade e uma conceptualidade superlativa, não credito nisso, esse tipo de explicação, incluir uma obra o seu autor numa categoria artística com base em semelhanças técnicas e tendências de estética que se justificam com sensibilidades intelectuais que são a base para o aparecimento de correntes de pensamento iniciadoras de movimentos políticos ou mudanças sociais que resultam em acontecimentos históricos?!?! Não me parece! É brutalmente pesado, não sei se alguém pegaria num pincel pensando na possibilidade de que estaria a iniciar um processo….. que após uma sucessão de centenas de milhares de ciclos de causa efeito poderia provocar uma revolução ou uma guerra civil!…quanto mais pegar no pincel pensando em fazer uma coisa que provocasse isso!

Esse é o tipo de coisa, perceber e explicar eventos que se sucedem em períodos longos, conseguir descobrir as causas, efeitos, motivações, interesses e alinhar tudo, compilar, cronologicamente agregar não é tarefa de gente aérea, espontânea, criativa e necessariamente louca como são os artistas! Isso faz-se após muitíssimo estudo, são os académicos da história que sabendo associar todos os acontecimentos de um período podem com base nisso dissertar sobre o desenrolar dos acontecimentos e como nós simples mortais dizemos…“encontrar o fio á meada!”.

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Monet com 18 anos

Acha que a “impression” começou com um Monet madrugador, espreguiçando a tumidez e dizendo ” …hoje está um dia óptimo para fazer um quadro que chateie os patifes da academie!”??

…suspeito dessa possibilidade, não acredito que tirando o moleskine da sobrecasaca, sentado a contemplar a vista estivesse pensando consigo mesmo..” esta coisa da revolução industrial é óptima para se mudar alguma coisa…era bestial eu ficar imortalizado nesse processo!…deixa cá ver…hum…os gajos pintam sempre aquelas velhas odiosas e tentam esconder-lhes as verrugas e as peles penduradas, são uns mentirosos….uma paisagem é sempre uma coisa lindíssima, se mandassem os quadros todos da humanidade para uma civilização alienígena pensariam os pobres diabos, que aqui somos felizes, ricos e que nascer na terra dá direito a ter uma tipóia aparelhada com dois ginetes gloriosos!!…que diabo, não saberiam sequer que aqui chove!!…tá na ora de acabar com isso!”

….será? Não acredito!

Repare que eu vou pensando enquanto escrevo, assim como conversando sem contraditório e portanto se achar isto redutor ou simplista…imagine-me concordando animadamente consigo, lamentando não poder ser douto e esclarecido por não ter assim tanto conhecimento mas considerando isso neste caso uma vantagem….justamente porque permite conversar consigo sem a responsabilidade do rigor e sem a desmotivante probabilidade de pregar teorias bolorentas e empoeiradas, sem ter de falar de cátedra e sem ter começar as frase de ligação com um desbotado e condicionante “…pois muito bem! Á luz de…”.

Advogado que está o meu direito ao disparate e uma vez que só poderei saber-lhe a opinião mais tarde, aproveito pois para refinar mais aquele farrapo de lógica que estóica mas divertidamente venho esgrimindo!

O artista em criação não pretende e quando faz, quando tem uma intenção concreta de passar uma mensagem é mal sucedido, só pode ser!…talvez se possa explicar isto mas preferia ir noutro sentido, no sentido de lhe explicar a minha opinião sobre isto!…dizia algures lá para trás que a obra é meramente um resultado, a materialização de um processo demasiado confuso, dominado pelo acaso e por isso ….criativo.

Isto tem de ser uma coisa necessariamente livre, ter uma intenção e obrigatoriamente persegui-la é demasiado castrador, associar a uma obra o que quer que seja parece-me postiço, conceber que o artista é um ser tocado por deus numa empresa messiânica, fabricando livros, quadros, filmes como pistas ou é a meu ver .

….continua

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Entry filed under: arte, art_attack, escrever por escrever, eu...e os dois leitores do blog!!, posts da tuga.

…amor à pátria!! …andei a ver a expo e dei com isto!

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