O Ruca…os pais do Ruca…a irmã dele…e mais um milhão de estórias por contar!

Abril 27, 2007 at 9:48 pm 3 comentários

 

ruca.jpg

 

Eu já tinha falado do ruca antes, na altura descrevi, salvo erro, este angolano de origem portuguesa

 

….ou melhor este português de alma angolana como um dos meninos do porto mais castiço que conheci.

 

Entre vários nomes que lhe chamo….estão “Ruca Nunes” em homenagem ao mais incrível dos personagens de Carcavelose a sua proverbial capacidade de improvisação em estado adianto de alcoolismo!….mas não é das alcunhas do Ruca que estou para aqui a falar hoje

 

Hoje lembrei-me, sentado que estou aqui em casa, das expressões e das estórias do Ruca.

 

O Ruca lembra-me os contadores da estórias da praça ” djemma el fna” em Marrocos misturado com aqueles escritores da América Latina no estilo “realismo mágico”.

 

Contava-me no outro dia da Avó e dos seus sonhos, do livro na mesa de cabeceira com a tradução dos sonhos, livro já gasto de muitas e muitas consultas

 

…contava-me ele “…a minha abózinha, nem sei se te conte aquilo uma vez ganhou a lotaria espanhola porque sonhou com jibóias…repara..bem jibóias…acordou ás pressas e em camisa de noite chamou a gobernanta e mandou-a consultar o livro….jibóias dá problemas de rins, uma pessoa que te quer fazer mal no amor…está relacionado com trovoada, ventos e o número da sorte é 645.

….comprou todas as terminações de todas as lotarias, a governanta claro….ás seis da matina e na espanhola…17 mil contos da moeda antiga!….levou uma vida….mas sonhou…teve de ir ganhar a Espanha.

Aquilo quando souberam todos os filhos e netos é que se começou a complicar que as matemáticas ao dinheiro dos país sabemos todos fazê-la e naquela altura não era diferente “….mandou abisar que não tinha ganho nada….era confusão outro sonho….coisas da idade, enfim, transferiu o dinheiro para a conta da minha mãe que não vivia no país, e não mais falou nem de jibóias, nem de Espanha, nem de bons ventos nem de bons casamentos! Alegou qualquer desculpa e desapareceu com o dinheiro até hoje!”

Quando o Ruca começa a beber a sua cerveja “…a estalar se faz favor!” a prosa começa a ser deliciosa, a simples ida ao super mercado faz-te ficar preso á cadeira de excitação e divertimento….aquele mistura a justificação do sobrenatural com a realidade simples resulta numa companhia do melhor…melhor, melhor só mesmo o Sr. Miravent, pai do Valos o meu grande amigo, que refinou a malvadez e a ironia numa destilação de humor em mais de quarenta anos de amadurecimento.

 

ruca_2.jpg

 

O Ruca para quem não o conhece…é difícil de explicar, é ás vezes tuga empedernido cheio de estórias do porto e da avó do porto….da vida de menino educado nos melhores preceitos tradicionais da invicta…aquele criação de gente que é rija como raio e às vezes

é o mais angolano que qualquer branco, com bilhete de identidade português, pode ser…lembra-se de estórias fantásticas deste país…ele é do tempo dos quadros humanos, propaganda socialista promovida no Estádio da Cidadela pelos cubanos e pelos russos, é do tempo dos produtos leofilizados, todos leofilizados e do período da história angolana chamado amigavelmente por “A era do peixe espada” em que só existia aquele peixe e se fazia ao almoço peixe espada grelhado, ao jantar caldeirada de peixe…..espada…e depois peixe espada cozido e frito…em panados e filetes de todas as maneiras…feitos e géneros…e ainda hoje proíbe de lhe apresentarem tal coisa á frente ainda que esteja sem comer à mais de dois dias, o Ruca lembra-se, por exemplo, ainda do tempo em que se tinha de levantar nas aulas…” sim Sr director!”….teve cadernos com Hino Nacional na contra capa fornecidos pelo éme(PLA)… “recolhia obrigatoriamente” no tempo do partido único e ainda chama simpaticamente ” Robin dos postes” ao Jonas Savimbi, em honra ás inúmeras vezes que ficou sem electricidade por causa dos ataques ao abastecimento de luz da cidade!!

 

….quando começa a falar da família o “chefe Simões” como lhe chamo agora, imediatamente começa a trocar os B`s pelos V`s….aquilo é automático!…é toda uma catrefada de entes passados a martelar-lhe “…o menino fale coumo debe ser…entende? Carago?”….no outro dia estávamos a beber umas em minha casa…a propósito de uma garrafa de Lóios Tinto do José Maria da Fonseca que eu tinha e de uns cogumelos de 50Usd que Ruca comprou para delapidar esse néctar dos deuses que andava pela minha garrafeira e desata o Ruca a contar estórias de família!…aquilo foi demais

 

…começou por gabar o distinto gosto do pai em whiskey e as diversas complicações que aquilo tem trazido á família

Ora veja-se esta preciosidade…o pai do Ruca viveu sempre em Angola e sempre foi do Porto como se lá vivesse todo o santo dia de toda a sua vida….nas deslocações que fazia de férias para visitar a família e relembrar à Invicta que um seu filho ainda teimava em ser dali, desenvolveu o hábito…o bom hábito de comprar garrafas de whiskey nas lojas do Aeroporto de lisboa usando a troca da avião para fugir dessa mouro(itânia) que todos os tripeiros abominam visceralmente!…aquilo era do tipo “…já que tenho de aqui passar ao menos que leve uma excelente garrafa do melhor whiskey” e acho que eram estas as palavras do Ruca…tanto quanto me lembro!…assim, metódicamente, se fizeram em vários anos as melhores prateleiras da família Simões do Porto….decoradas com “…água da Escócia” da melhor qualidade…em variedade de meter inveja a qualquer apreciador e de fazer tremer até o mais insistente dos coleccionadores!

 

….por ali andavam raridades de James Martim com número de garrafa e tudo…eu que não sou apreciador, só de ouvir a descrição tremi de entusiasmo….maltes únicos de destiladoras já desaparecidas, antiguidades engarrafadas após esperas de mais de 25 anos e de 30 anos…..líquidos misturados por blenders que são lendas e com narizes avaliados….segurados….por larguíssimas dezenas de milhares de libras….nectares que ficaram depois esperando….pacientemente em cascos de carvalho a absorver os odores a maturá-los décadas a fio.….coisas antigas que finalmente depois de engarrafadas enumeradas para melhor se saber onde tinham ido parar….após viagens de milhares de quilómetros como alguns bourbons raríssimos, caríssimos produzidos no novo mundo…verdadeiras fontes de inspiração e prazer prosperavam alegremente nas prateleiras da casa de Matosinhos do Ruca Simões, diligentemente observadas e valorizadas pelo seu garboso pai.

 

…..ora aquilo só por si não é razão para se contar uma boa estória…..a estória começa quando a irmã do Ruca acaba o curso e decide transportar a festa lá para casa

 

….bem visas as coisas….uma cambada do bota abaixo em frenesim académico de “éfe erre ás…” e “quem quer ser cá da malta..” pronta a aviar-se à tripa forra nos whiskeys do mais velho Simões

 

….não se faz!!…mas fez-se…assim mesmo, bota abaixo sem compaixão pelo alheio e assim se foi uma fortuna incomensurável diligentemente delapidada por um bando de bárbaros.

 

…numa só noite! …assim também é demais!….ora tudo isto foi promovido pela irmã do Ruca, aquela irmã que lhe dá um brilhozinho nos olhos e que teve o cuidado de lhe fazer saber o que é uma educação esmerada no porto quando lhe partiu um vaso com plantas e tudo na cabeça de 13 anos de idade por uma qualquer transgressão do respeito pela organização doméstica, do cavalheirismo ancestral e outros valores fundamentais para um miúdo se fazer homem

 

…tivesse na Lunda Norte e essa passagem de menino a homem seria bem pior, com uma circuncisão a sangue frio em frente a um público frenético….passou no porto, com a irmã favorita e um vaso pela nuca!….menos mal!

 

Ora esta delapidação arrancou um pedaço do coração do mais velho Simões mas foi ainda mais grave para a Mãe do Ruca, senhora como já não se fazem, daquela fribra das nossas avós e com a melhor da mentalidade da geração dos nossos país!….aquilo foi grave para ela pela simples razão que escolheu um persistente para marido.

 

O pai do Ruca, decidido que estava a não desistir daquela tarefa reservada ao Outono da sua passagem terrena foi dar com um festival do whiskey no Continente do Norte Shopping….um festival….de whiskey,,,,era mesmo o que calhava!….e calhou!

 

Havia-os de todos os gostos e feitios, de todas as marcas e destinos e lá foi encontrar a maior parte dos seus velhos conhecidos que em outros tempos ocupavam aquelas prateleiras….agora vazias…desertas….desamparadas que dava dó!.

 

…ora não esperou por outra oportunidade e despreocupado que é da economia doméstica resolveu criar a base de uma nova colecção….e vai daí!….duzentos contos!!….duzentos…mil escudos que na altura, se bem se recordam…era exactamente uma fortuna, uma porrada de dinheiro

 

…uma extravagância de dinheiro que os Simões do porto até podiam dispensar com alguma tranquilidade mas que á mãe do Ruca lhe fez….duas rugas de expressão que ainda lá moram até hoje, meia dúzia dos primeiros cabelos brancos e uma dor de cabeça maior do que se tivesse bebido os duzentos contos inteiros em shots de tequilla!

 

….o pai do Ruca, enfim, lá ficou com as prateleiras como queria e assegurou que mais nenhum filho ia para a faculdade no Porto ou num perímetro de 400Km em qualquer direcção daquele tesouro que lhe custo uma semana no sofá….uma dor de costas valente, directas e indirectas até hoje e ainda os tais duzentos contos deixados na caixa dezasseis do Continente do Norte Shoping.

 

….isto contado assim nem tem grande piada…é certo e já mesmo assim levou uns acrescentos de autor, estórias destas e ouvi-las com o Rui Simões e duas dúzias de cerveja no gelo….isso sim!! 

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ainda…mais disparates…no msn…e com a miriam!! O Leão é forte como a amizade

3 comentários Add your own

  • 1. Rogério  |  Dezembro 14, 2009 às 7:36 pm

    eu queria um livro do Ruca ao caça ao tesouro

    Responder
  • 2. marcia  |  Abril 24, 2010 às 8:05 pm

    não conheço o ruca, mas já gosto dele… mas acho que ainda gosto mais dos pais dele… que personagens!

    Responder
    • 3. pedromoraiscardoso  |  Abril 24, 2010 às 9:19 pm

      de facto o ruca é um personagem cheio de mistica, muitas qualidades humanas e profissionais….a familia é uma extensão e causa primária destas qualidades!

      …um grande amigo!

      Responder

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