2046 – Bilhete para lado nenhum…ou amor só de ida.

Março 11, 2007 at 9:05 pm 1 comentário

2046 – Bilhete para lado nenhum…ou amor só de ida. 

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“ o amor é uma questão de oportunidade, de nada vale encontrarmos a pessoa certa cedo demais ou tarde demais!”

….era disto que eu ia à procura quando pus uma vez mais o meu poema preferido no DVD, o 2046 do wong kar wai.

O problema é que não foi isso que eu encontrei, ou por outra, dei por mim a ver outro filme, o filme do realizador e sua técnica.

È bom explicar que eu de cinema não sei absolutamente nada, rigorosamente coisa alguma! A única coisa que me pode valer é o facto de ver muitos filmes, vejo tudo, desde o mais básico filme americano, à série z mais “pé-de-chinelo”, passando pelo mainstream europeu, alguma coisa coreana, chinesa, espanhola e até os filmes que ninguém percebe e quase toda a gente considera uma seca. Geralmente são esses os que mais me ficam na memória, até porque também não os percebo!

No entanto, até o mais ignorante dos espectadores pode tentar ver os seus filmes e como ver um filme pode ser muita coisa. Eu desta vez vi o que passo contar.

O wong kar wai tem destas coisas, as coisas estranhas e incríveis que as pessoas reais podem conseguir. O 2046 é uma dissertação poderosa sobre as consequências do amor nas pessoas, uma espécie de “ escarafunchar” os recantos da alma humana. Ele faz isto com uma dedicação incrível e consegue captar de facto aquilo que as pessoas normais estão sujeitas quando se rendem a esta praga a que geralmente chamamos amor.

O que mais espanta em wong kar wai e que é já lugar comum dizer-se é a profundidade das personagens, a consistência do trabalho de actor, a densidade da performance. As personagens em qualquer filme deste realizador são amadurecidas, vê-se claramente ali uma incomum realidade, impossível sem uma entrega total ao tema, sem olhar ao dialogo e ao guião. As personagens agem de facto como pessoas, coerentemente incongruentes, ora fortes como frágeis. São pessoas como nós.

Mas desta vez chamou-me o filme para outra coisa, para o filme em si, a forma como está filmado, as manias do realizador, as diletantes fugas de solução para caminhos pouco usuais. Isto é chato demais para se estar a escrever e provavelmente vai ficar mal estruturado e mal fundamento porque no fundo…..acaba por ser escrito por um ignorante na matéria.

Ainda assim cá vai a minha….critica!!…ora quem diria….critica….logo eu que as acho sempre ilegíveis, incompreensíveis e sobretudo quase sempre sobre alguma coisa que nada tem que ver com o que eu vi!!

O mais impressionante no filme foi as soluções que o wong kar wai encontrou para o monótono “ campo/contra campo”. O filme é um filme de pessoas em que o diálogo é o centro de gravidade da trama. Assim é de prever que o autor fosse mandar o campo e contra campo ás ortigas para centrar a atenção noutras coisas, nomeadamente nos actores. Qual quê?!? O tipo é tão genial que faz tudo ao mesmo tempo, encontra soluções incríveis, e o resultado mais prático é que sai toda a gente bem tratada de cada uma das cenas….sobretudo o espectador.

Senão repare-se

        

 

Campo                                                                Contra campo

Tá absolutamente genial….não está?…está pura e simplesmente ao contrário do que se costuma fazer.

Mas este é só o começo do que este tipo é capaz de fazer,

  Campo                                                           Contra campo

Se repararmos este jogo está verdadeiramente sábio e tem um pormenor que me agrada, o tipo usa apenas ¾  da tela para imagem, o resto é negro e isso transmite-nos uma sensação….um misto de voyerismo e intimismo, uma certa distância talvez! Torna a cena mais confortável.

De resto isto vai depois ser uma constante, este entrelaçar de molduras na imagem, esta distância, este enquadramento ora á esquerda, ora á direita com cada vez menos espaço para a imagem e cada vez mais área de textura.

Mas os campos não acabam aqui como é óbvio….veja-se.

           

Campo ( mulher/ homem desfocado)     Contra campo ( direita)

                                                                      

          

Contra campo                                          Campo ( inverte esquerda)

Então depois temos disto!!

  

Campo                                      contra campo                           campo

Absolutamente vulgar, eu acho que é de propósito, para fazer lembrar do que é que é feito um filme normal, ainda por cima a estética da cena está muitíssimo pobre, por oposição á grande maioria das cenas do filme que são de uma inesperada e abundante utilização de cor.

A dança dos deuses 

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É aqui que começa verdadeiramente a cena mais genial e tecnicamente perfeita do filme, neste plano da colocação das câmaras para filmagem de diálogos, claro!!

Depois desta perspectiva, novamente, intimista e curiosa, temos uma dança de personagens e câmara absolutamente imprevista! Ora atente-se bem!!

  

A personagem desloca-se até á janela onde começa uma discussão, não no sentido clássico, é mais uma conversa crispada, sem muitos gritos, no entanto com momentos de libertação de raiva.

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Se repararmos aqui não há de facto uma inversão do plano, por isso é que isto está genial, o plano é o mesmo, as personagens dançam em frente da câmara para dar coreografia á cena.

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Mais uma vez aqui não há o contra plano/ contra campo clássico, as personagens fazem uma rotação sobre si próprias ( é visível pelas ripas que se encontram na primeira imagem, e na terceira, já atrás do espelho), isto é ainda mais visível, esta movimentação das personagens da terceira para a quarta imagem, quando a própria câmara enquadra a saída de cena do homem e de seguida a mulher. O tipo faz isto com uma magia que é demais, a mulher fica isolada ali a falar, sobre um fundo preto, de frente para a entrada de luz natural de tal forma que fica grandiosa, resplandecente, numa cena em que está a ser humilhada, ultrajada e se rende completamente a isso.

     

Aqui ela volta! E cria uma tenção pouco usual, mas repare-se na cena, ela está á direita e movimenta-se para esquerda, ele acompanha o movimento e depois duma troca de palavras é ele que sai de cena na mesma direcção que ela tinha rodado!!!….genial…simplesmente genial!!

Wong Kar Wai devolve-a ao mesmo sítio para mais uma ronda de humilhação!

Aqui é a melhor parte da cena, em que ela diz coisas como…” não abres uma excepção para mim?!?” e não obtém resposta…..” não me importo que tenhas outras mulheres, só não vou aceitar que me trates como se fosse uma delas!”……” “ não me importo que me ames ou não…seja como for eu amo-te!”.

Esclarecedor!!

   

 

….a cena termina aqui, quando ela quer sair e ele a agarra pelo braço para lhe dar a última humilhação, ela liberta-se e sai dali….no fundo nunca vai sair dali. Ela ficou parada naquela cena para nunca mais sair, ela vai para 2046, para onde ele já está e de onde dificilmente se volta. O contraponto resulta de forma fenomenal, ela está a iniciar um percurso que ele acabou, ela está a começar….boa viagem querida, ainda tens umas “cenas” para sacrificar no altar do amor, nós por cá já demos para esse peditório.

Diversidades 

 

Já quase no fim do filme existe uma sequência de diálogos entre o personagem e um fantasma saído do seu passado, e do seu futuro também, aqui o realizador excede-se na diversidade dos campos, contra campo para os filmar.

 

Acena começa assim….é verdade…começa assim mesmo!!

  

Campo (meio plano ocupado em textura)                Contra campo

 

Campo                                                                     Contra campo

 

Campo                                                                     Campo

 

Contra campo                                                          Contra campo

 

Campo                                                                     Contra campo

Distância 

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São todas cenas que nos transmitem essa distância confortável, mas existem algumas coisas que vão além disto, vão ao limite do voyeurismo, de espiolhar o outro, de invadir a privacidade de querer entrar sem ser convidado.

 

 

…depois tem outra coisa, tem a estética que em algumas imagens é única!

 

 

 

 

 

 

 

 

…é realmente demais!…é de outro mundo, sobretudo isto é feito com unidade, com uma tranquilidade que é pautada por uma banda sonora incrível que nos transporta exactamente para onde o realizador quer, uma espécie de lugar sem tempo….onde a única coisa que conta é o tema do filme, onirico, impassível, totalmente imparcial e sobretudo paciente!

Mas não é só….temos a divisão da imagem, o roubar de espaço aos intérpretes para favorecer a distância em relação á cena que se vai desenrolando.

Eu, pessoalmente, acho que é daquelas coisas que acontecem enquanto se desenvolve o trabalho, experimenta-se, muitas vezes até por acaso e seguimos por ali testando e reinventando o que conseguimos….neste filme resulta realmente, consegue-se um transcendência cénica que não mais é que a evolução da cena de “ In the mood for love”, a cena da descida para os noodles ( para quem sabe do que falo) é das movimentações mais geniais de câmara e aqui ele continua a testar essa movimentação, apenas introduz um factor que é o negro, ou um padrão de cor reflexa, que faz uma divisão do espaço em plano!….isto é tão melhor quanto á medida que a câmara de se desloca o espaço em plano vai aumentando ou decrescendo e isto sai genial! …daqui vai para inúmeras variações que lhe dão maior desenvoltura mas o resultado é invariavelmente bom.

 

   

 

 

 

 

As coisas que nós reparamos quando estamos para ai virados….é fantástico!!

…é já agora o que dizer disto, das cenas em publico, da vivacidade que elas transmitem, da composição um pouco como Godart, a composição coreografada de todos os elementos no plano, mas com uma atenção vincadamente para o centro da acção.

 

 

…é simplesmente fascinante….não admira que seja um dos mais reputados realizadores do mundo, um dos mais premiados e que cada um dos seus filmes neste momento seja a espera de uma obra prima, não é o marketing que tem feito de Won kar Way um grande génio, é o seu percurso, quem viu falling angels ou chungking Express e days of being wild sabe de que estou a falar mas não esses os melhores dos filmes dele, são estes, mais maduros e melhores tecnicamente, é o In the mood for love e o 2046 que são realmente fabulosos, realmente profundos e circunstancialmente mais badalados.

 

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Sobre o facto de a vida ser um palhaçada demasiado desgraçada para podermos pensar que sabemos tudo! entre dois cigarros e um café

1 Comentário Add your own

  • 1. alcaminhante  |  Abril 30, 2008 às 11:23 am

    Concordo em absoluto pois eu também sou daqueles que adora os dois filmes.
    Gostei também muito do estilo da review e da análise dos planos subjectivos entre outas coisas. Muito bom.
    Quando puderes passa pelo meu blog sobre cinema oriental em http:/cinemasiatico.wordpress.com
    Ainda não coloquei a minha review sobre o 2046 mas já faltou mais.

    Responder

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