Por terras do rei Mandube (II)

Outubro 18, 2006 at 6:09 pm Deixe um comentário

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inspirado nas trovoadas do sul

…como não chegou o último post para contar todas as coisas do Cunene vou fazer um bis!  A questão da fronteira é engraçada e demonstra que as coisas funcionam, não como Deus quer, mas como os homens preferem. O negócio ali é importante e alguns pormenores são relevantes.

A maioria da população de N`jiva, Nakamunde e Santa Clara ( as três principais localidades fronteiriças) não é sequer Ambó ( Etnia predominante do Cunene), é Nhaneka-Humbe, mais concretamente Mukubais, isto sucede porque os Ambós aquando da invasão daquela zona, por parte dos Sul Africanos fugiram para a Namíbia sendo hoje Namibianos e quando o MPLA já recentemente resolveu reconstruir o Cunene, o que tem feito de forma exemplar, quem veio à procura dessa oportunidade de progresso foi a população da Huíla e assim aquilo é uma agradável mistura de Etnias, todas elas simpáticas e castiças, o que resulta numa coisa…..parecida com o Alentejo?!?

….pois é! Não sei onde fui buscar esta, mas que parece, parece! O método que eles arranjaram para resolver o facto de que os tipos que vivem perto da fronteira, quer dum lado quer do outro, serem todos irmãos, primos, tios, e conjugues uns dos outros, foi arranjar uma maneira de fazer daquela zona uma espécie de Andorra do sul de Angola!

Ou seja, até 30 quilómetros da fronteira aquilo é o mesmo país, se quiseres passar a fronteira deixas o nome e cópia do B.I. e podes circular! Se quiseres passar dos 30 Quilómetros então tens de tirar o visto!….e é assim que aquilo se tornou numa zona de negócio florescente, a malta do lado de lá faz stands de automóveis, centros comerciais, armazéns de material de construção e o diabo a quatro até 30 quilómetros de distância e tudo o que é Angolano pode facilmente ir comprar esse material e revendê-lo depois! 

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irmão protector em Xiangongo

Depois, bem depois existe o Toni!….ora o Toni é exactamente um Cuonhama da estirpe mais contestatária que existe, eu jantei com ele e não consegui parar de rir um segundo com as reclamações dele, fez-me lembrar os Cabindenses….e claro, o Alentejo! (Sabe-se lá porquê, mas deu-me para ali!) ….comigo na mesa além do Toni acabou por se sentar um Holandês que era consultor de uma empresa dessas que emite opiniões sobre as mais diversas coisas e que recebem fortunas por fazê-lo, com ele estava um Angolano da diáspora que lhe servia de guia, tradutor e contacto com a população local, estava também uma das donas da Vila Okapande que é o principal hotel da província e o sitio onde fiquei! 

Aquilo foi de gritos, o Tony desancou este mundo e o outro, desancou o Governador e o bife de vaca que lhe serviram, desancou o holandês, desancou os Cubanos que andaram a construir uma conduta de água que não funciona, desancou o tempo do colono para me desancar a mim, desancou o estado das coisas no país e fora dele, desancou as taxas aduaneiras, desancou a sogra dele e só não me desancou directamente porque eu me ria sem parar e mandei vir para a mesa uma garrafa de “black label” que diligentemente delapidamos nessa noite que foi também a da eleição da Miss Cunene! 

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Dizem as gentes do cunene que este ´

é o maior imbundeiro de África

Pois a Miss Cunene, em Portugal dava cadeia…..ou por pedofilia ou por exploração do trabalho infantil, mas dava certamente cadeia, sobretudo agora que o procurador deixou de ser um gajo que prefere os brandos costumes aos limites da lei! 

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as miss cunene 2006 em trajes menores

Mas foi engraçado, o Celso sempre que eu mudava de sitio para tirar umas fotos vinha a suar da testa a dizer “…paizinho, tá tudo bem?…..não queres dar a máquina para guardar?”, eu bêbado que nem um cacho, inspiradíssimo de ouvir o Tony nem o ouvia a ele, a única coisa de que queria saber era do Black Label e da sede que não parava de me atormentar, isto foi no sábado á noite! 

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os putos em angola teem de levar para a escola

cadeiras para se sentarem

Por acaso acontece uma coisa no Cunene, eu que não sou gajo de beber senão água fresca e café aos pontapés, acabei por todos os dias beber pelo menos um whisky de final de dia. O que me soube melhor foi o do primeiro dia, estava uma tarde de um calor impressionante e depois de uma série de reuniões e levantamentos técnicos o que sucede é que cheguei ao hotel e antes mesmo de jantar me sentei a ver o pôr-do-sol na esplanada local.

Às páginas tantas, depois de “pentear” os regulamentos que vamos aplicar ali em conjunto com o Governo, dou com uma tempestade. Ora uma tempestade naquele fabuloso fim de mundo é uma coisa extraordinária! ….o Cunene é tão longe que fica…..imagine-se ….. atrás do deserto! Pois é, atrás do deserto do Namibe e então as tempestades como a que eu vi são frequentes, tempestades secas apenas com trovoada a povoar o céu, um calor abrasador, sem uma gota de chuva, e trovoada a servir de pano de fundo…..foi inesquecível!!! 

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arvore derrubada por uma trovoada

….fez mesmo lembrar Alentejo!

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Entry filed under: estórias d`Angola, Jornadas e descaminhos.

Foto conclusões do Cunene ….(h)á bué

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