… até jazz!

Agosto 15, 2006 at 8:48 pm 1 comentário

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Ouvir jazz é uma loucura, sobretudo quando se sabe o que está a ouvir. O que se percebe é a maior parte dos que ouvem são snobs, acham que quem não tem ouvido para aquilo é tísico e sumariamente arrumam-nos na prateleira dos imberbes, dos pobres de espírito e claro está dos incultos.

Esquecem-se claro, que também tiveram de aprender a ouvir, o jazz não entra de primeira a ninguém, até porque é demasiado extenso, demasiado largo, demasiado complexo e sobretudo não é ritmado em fórmula simples…. O jazz não é “prêt–a-porter”.

Eu de musica não percebo nada, não sei uma nota, não sei o que é um compasso, não tenho a mínima noção dos estilos e do que implica tocar um instrumento…não faço a menor das ideias de como é que se aprende e acho estranhíssimo que alguém nasça com o dom de saber fazer uma coisa que envolve, em principio, uma grande técnica e sobretudo muito estudo.

Mas uma coisa eu sei….aprender a ouvir jazz foi o cabo dos trabalhos. A primeira coisa que eu gostei de jazz foi Louis Armstrong, aquilo entrava bem era simpático e achei que na altura era o máximo, todos os outros vieram fazendo uma degradação do estilo tentando evolui-lo mas claramente prejudicando-o, não fazia ideia do falava….mesmo, nem sequer sabia nomes de interpretes e Charlie Parker ou Jonh Coltrane eram nomes demasiado abstractos, não conseguia defini-los no tempo, nem ocupar um espaço com eles, Billy Holliday soava a nome masculino e Sara Vaughn era coisa que não parecia saída de bares com fumo e álcool.

Foi quando a Rute, uma ex-namorada, me ofereceu um livro do Jack Kerouak que eu fui ao rubro com o jaz e o que ele representou para várias gera

ções de jovens.

 

O livro tratava de uma “onda” nos anos cinquenta dos estados unidos, chamavam-lhe os “beatniks” e o que faziam era viajar pela América em carros usados, bebendo e fumando tudo o que apanhavam pelo caminho. Uma das personagens, Dean Moriarty, marcou-me imenso pelo seu impulso inocente de aventura, de desprendimento e as descrições de jack keroak sobre a New Orleans dessa altura, dos bares onde se tocava jazz dos interpretes das sessões de jam que duravam até altas horas com pessoal completamente frenético a puxar e dançar, a beber numa animação quase histérica eram uma coisa alucinante.

 

Desde essa altura que a minha curiosidade pelo jazz aumentou, eu queria ter feito parte daquilo, o jazz que eu conhecia era snob, era jazz de salão de chá, dos bilhetes inacessíveis, das salas com tias que deixaram de ir á missa e encontram no CCB, na Culturgeste e na Gulbenkian o substituto para usarem os vestidos que lhes custam fortunas, as maquilhagens que demoram horas a fazer e os penteados que servem de pretexto para saberem da vida alheia no cabeleireiro local.

Este jazz era mais mundano, mais possível, mais excitante, mais real e menos incompreensível.

Foi ai que comecei a ficar mais atento e a frequentar o jazz onde quer que ele me aparecesse, então comecei por experimentar o Estoril jazz e fui a uma sessão com o Kenny garret, o tipo faz uma série de coisas para umas bandas que costumamos todos ouvir e costumamos chamar de “chill-out”, é o acid house, mistura de musica electrónica com jazz. Então costuma o tipo fazer alguns arranjos para o projecto jazzmatazz do GURU e também para o sting e Peter Gabriel mas toca também com por exemplo Art Barkley e Miles Davis. O concerto foi demais e ainda por cima no Estoril!! Sede oficial do movimento nacional de tias e tios de Portugal. Mas qual nada, super descontraído…cheio de betos claro e alguns intelectuais mas super boa onda, tudo a beber cervejinha da garrafa, a assobiar e gritar “ blow, blow”….foi super!

De seguida fui atrás duma cena mais intelectual que não supunha o que seria, o Jazz em Agosto, na Gulbenkian. Estava longe de supor que aquilo fosse uma exactamente uma experiência….uma experiência no sentido literal do termo, fui a dois concertos, baratos, nesse ano. O primeiro era dum tipo que estava no palco cheio de instrumentos tecnológicos e cenas vídeo e mais três gajos com instrumentos convencionais. A banda chama-se François Houle Electro Acoustic Quartet. Tocava o vulgarmente chamamos Jungle music, com sons super abstractos, ou melhor sons a partida reconhecíveis tipo pássaros e barulhos familiares e começava a distorcer aquilo com lentidão, acompanhado pelos instrumentos que eram tocados das formas mais obtusas, por exemplo o tipo do saxofone passou os primeiros trinta minutos de concerto a bater com um ferrinho na boca do sax para produzir um ruído estranhíssimo….tudo aquilo era feito com lentidão, muita calma, desenvolvendo à medida que ia andando….ou seja era uma jam, nada daquilo será reproduzido alguma vez, talvez que usem alguma coisa ou outra que tenha soado melhor mas certamente não se repetirá, achei aquilo simplesmente genial, muito embora não entrasse no meu ouvido tísico.

 

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Arve

O segundo concerto sim, esse além de genial foi musica para os meus ouvidos. No pequeno auditório do centro de arte moderna estávamos ai ….umas vinte pessoas, para ouvir um norueguês que se propunha a fazer “ uma experiência de sonoridades”.

 

O tipo, Arve henriksen, era simplesmente colossal….entrou em palco e começou informalmente a montar o equipamento, uma groove box, um sampler, um trompete, mais nada….ele….sozinho e três coisitas que pareciam desconsoladas até para aquela amostra de palco que o pequeno auditório tem. Começa a arranhar num inglês esquisito uns obrigados por terem aparecido, estive no Japão e tal e gostava de fazer aqui alguma coisa porque me contractaram e agora vou começar a tocar. Então o tipo o que fazia era primeiro marcava um compasso…a bater no trompete e gravava no sampler, depois metia aquilo em loop, fazia a mesma coisa com duas ou três coisas que tocava em graves e depois em mais agudo….metia aquilo tudo em loop e depois começava a improvisar em cima disso.

 

Vi o gajo naquele dia fazer coisas que não pensava ser possível fazer sozinho e nunca me hei-de esquecer!!…o tipo ás páginas tantas começa a imitar um helicóptero tirando a boca do trompete e tapando-a com um pano e realmente faz musica com isso, aquilo foi de tal forma que todos os vinte espectadores estavam pasmados, atónitos e de vez em quando ouvia-se “ fuck!!….que cena brutal!”. O Arve não parou de tocar nem um segundo durante os primeiros 45 minutos de concerto e de repente…..zás….desliga tudo….parece que sai do transe em que está e diz “ bem, vocês sabem o que me ocorreu?….falar sobre a separação da minha mulher, eu tenho estado a viajar à seis meses em concertos e à duas semanas ela ligou-me a dizer que conheceu outro gajo e que se ia mudar para viver com ele….eu tenho dois filhos com ela e gostava de fazer qualquer hoje que tivesse relacionado com isso!” e vai dai começa outra vez a compor os loops que ia usar de base, só que em vez de usar só isso começa a pedir que o pessoal faça sons infantis, risos, gritos cenas dessas e começa a samplar o pessoal todo divertido a fazer sons de miúdos a brincar. Começa a tocar e tocar em cima daquilo e de repente começa com a groove box a distorcer os sons dos gritos a torná-los mais e mais graves até aquilo se tornar num som quase de filme de terror e depois puxa dos samples que tinha com som parecido ao de helicópteros e começa a esgaçar o som do trompete….aquilo demorou para ai dez minutos a acabar….uma agonia….genial….simplesmente genial!

 

Nesse dia disse de mim para comigo “ ….se não consegues perceber isto não consegues perceber nada!” e passei a ouvir jazz a sério.

…este post vai continuar de certeza!!

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…as foto-conclusões do lobito …lobito…luanda

1 Comentário Add your own

  • 1. adcard  |  Novembro 21, 2006 às 11:17 pm

    jazz is your best friend , e nunca irá fugir com a sua namorada …

    Responder

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